O conceituado músico moçambicano Moreira Chonguiça encara a arte como um motor impulsionador da economia em qualquer parte do mundo. Em Moçambique, terra que o viu nascer, Chonguiça defende um esforço integrado e congregador de todas as forças vivas da sociedade para que a arte, e mais concretamente o Jazz, se converta num instrumento dinamizador e gerador de riqueza.
Gildo Mugabe (texto) . Shanna Chicalia (fotos)
É do conhecimento geral que a economia moçambicana é diversificada. Entretanto, poucos sabem ou entendem que nessa diversificação reside também a Cultura ou a Arte e que esse eixo pode vir a ser um elemento fundamental na geração de riqueza.
Para o músico Moreira Chonguiça, a arte expressa-se através da música. E numa óptica mais específica, o Jazz assume-se como um género que se for bem acompanhado pela implementação de políticas estratégicas integradas, e no âmbito de uma indústria criativa fértil e profissionalmente robusta, poderá rentabilizar as empresas ligadas ao mundo da produção de espectáculos e catalisadoras de produtos associados como por exemplo os CDs, assim como as empresas ligadas ao turismo. Não há dúvida de que a indústria criativa da Arte pode catapultar as empresas de restauração, hotelaria e de gestão de eventos, mas torna-se crucial criar pacotes turísticos que sejam atractivos e garantir uma oferta de produtos integrada. E esse é um desafio que faz parte das actividades de Moreira Chonguiça, enquanto investidor e empresário.
"Somos um negócio e funcionamos de modo semelhante ao da indústria da Comunicação", defende Moreira Chonguiça.
Nessa senda, o músico depois de passar alguns anos em Cape Town (na África do Sul) e de voltar para a cidade de Maputo – sua terra Natal – começou a encarar a possibilidade de fazer negócio com a música. E foi assim que, nos idos anos de 2004, fundou a empresa ‘More Jazz Promotion’.
A More, como carinhosamente a chama, é uma organização que promove o Jazz do Mundo em Moçambique e o Jazz de Moçambique no Mundo. A sua sede na Sommerschield transmite uma áurea serena e ao mesmo tempo ‘vintage’, onde a sala de trabalho é um ‘open space’ que desenvolve um espírito Think Tank. Em abono da verdade, trata-se de um local onde a atmosfera que se respira é o Jazz, e para muito contribui a colecção única de imagens e de instrumentos de som, que são alvo constante de elogios.
More Jazz Promotion em acção
Como investidor, Chonguiça é da opinião de que se deve fazer da crise uma oportunidade para iniciar bons negócios. Aliás, para o fundador da More este é um momento ímpar e ideal para os empresários dos diferentes sectores se reinventarem e acreditarem nas suas capacidades, e os músicos não são excepção à regra.
"A More Jazz Promotion faz acreditar. É uma empresa teimosa. A nossa grande missão é fazer acreditar que quando tudo parece estar mal, podemos dar a volta por cima e fazermos a diferença", disse Moreira Chonguiça.
De acordo com o saxofonista, não se pode hipotecar tudo como responsabilidade do Governo, embora o Estado tenha a obrigação de criar políticas no sentido de proteger os autores (garantindo a defesa dos seus direitos) e de combater a pirataria – uma pandemia que afecta o negócio da música no País.
"A vontade de investir numa editora ou numa academia não nos falta, mas quem nos protege? Aqui estamos a falar da cadeia de valores. Tem que se respeitar a cadeia de valores, tem que haver políticas para o sector privado, cujo espectro abranja quem cria e quem produz, quem distribui e quem consome", sublinha Chonguiça.
Num outro desenvolvimento, Moreira Chonguiça fez menção à necessidade de se aliar o negócio da música a outras diversidades culturais do País. A título de exemplo, e de acordo com Chonguiça, Moçambique tem uma diversidade cultural invejável que vai desde a gastronomia, à timbila, ao xigubo, sem esquecer os 1.700 km de costa que garantem uma componente turística à altura. E todos os ingredientes juntos e integrados podem gerar uma alquimia rentável.
"Então, como é que a gente empacota isto para que possamos ter 20 milhões de pessoas por ano a visitar o nosso País?". Eis a dúvida levantada por Chomguiça.
Questionado sobre se não haveria a necessidade de se mobilizar os agentes turísticos para integrar este movimento, respondeu nos seguintes termos: "Os operadores turísticos vão começar a reagir a esta pressão. É assim que as coisas funcionam. Se existe uma grande procura, os operadores turísticos terão necessariamente de criar condições para garantir a sua oferta. Então, antes de tudo, temos que consciencializar o corporate moçambicano no sentido de financiar as nossas actividades, e falo mais concretamente da Banca ".
Maputo Jazz International Festival no Dia da Cidade de Maputo
A capital moçambicana vai acolher o ‘Maputo Jazz International Festival’ entre o final de Outubro e início de Novembro e esta iniciativa é a menina dos olhos de Chonguiça.
Trata-se de um evento que se insere nas comemorações dos 130 anos da Cidade de Maputo, cuja data da efeméride é 10 de Novembro. Para a materialização deste sonho, a More Jazz Promotion celebrou uma Parceria Público Privada (PPP) com o Conselho Municipal da Cidade de Maputo e embora o organizador não queira avançar com o cartaz do evento, o momento promete vir a ser inesquecível.
"Já existe o London International Jazz Festival, o Cape Town International Jazz Festival, entre outros festivais. Por que não termos o Maputo Jazz Internacional Festival? Pretendemos com esta iniciativa elevar a cidade de Maputo", sublinhou Chonguiça congratulando-se com o apadrinhamento do ícone incontornável, Sr. Hugh Masekela.
Quanto ao segredo para tanto sucesso, Chonguiça foi categórico ao apontar que a determinação, astúcia, audácia, resiliência e paciência, e saber acreditar, são as chaves para o sucesso de qualquer jovem empreendedor.
Marketing musical a todo o vapor
Um dado não menos importante prende-se com o domínio da criatividade e do marketing por parte de Moreira Chonguiça e que é um denominador comum em todas as suas criações.
Quando o músico lançou o seu primeiro registo sonoro, em 2004, intitulado ‘The Moreira Project Volume 1’, o também etnomusicólogo moçambicano não quis que o CD divulgasse o seu nome na capa. Tomou essa decisão por diversos motivos. Por um lado, pelo facto de nesse período a indústria de Jazz se encontrar numa fase crítica. Ou seja, nessa altura, as lojas de Jazz na África do Sul só vendiam 10% deste género musical. Por outro lado, o crescimento do processo da digitalização e dos canais de rádio on-line, com fácil acesso a música em formato Mp3 e Mp4, conduziu à diminuição das vendas de CDs.
"Justamente por isso é que tive de apostar na inovação. Na capa do meu CD eu apareço com a barba e cabelo super-compridos, numa foto pouco visível. Fizemos uma capa verde e no meio disso o Gonçalo Mabunda esculpiu uma arma com a qual fui fotografado de costas. Então, as pessoas antes de saberem que música era, queriam saber de que músico se tratava. E foi com este álbum que ganhei o prémio de melhor produtor em África em 2005”, revelou.
E mais, no segundo disco, Chonguiça voltou a apostar na criatividade, um factor que lhe rendeu o melhor ‘Álbum de Jazz Contemporâneo’, e mais do que isso… o álbum arrebatou também o galardão pela ‘Melhor Capa’.
Nada como unir o esforço do negócio da música à criatividade e ao marketing, e Moreira Chonguiça sabe perfeitamente que uma boa imagem além de um bom conteúdo fazem as deícias dos seus ouvintes. E foi nessa perspectiva que o músico aceitou também pousar para as fotografias da revista Capital num ambiente completamente diferente. Em vez do cenário ter sido o seu escritório, a escolha recaiu sobre o ambiente natural do ‘Botânica’, onde além de termos conversado, Chonguiça tocou jazz para os presentes. Um autêntico ‘delicatéssen’ musical.
In Revista Capital (Agosto 2017)