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Desempenho do Porto da Beira abranda em ano de crise

Nos primeiros seis meses deste ano, atracaram no Porto da Beira 246 navios, movimentando cerca de 4 milhões de toneladas de mercadoria diversa. Em igual período de 2016, o Porto recebeu 278 navios que movimentaram cerca de 4.3 milhões de toneladas, incluindo o Carvão. Este ano, a Cornelder espera superar o desempenho de 2016 e retomar a média dos últimos 15 anos.

Por Belizário Cumbe, in Revista Capital

A Cornelder de Moçambique (CdM) é concessionária do Porto da Beira há 19 anos. Desde 1998, a companhia soma anos de bons resultados e já investiu pouco mais de 100 milhões de dólares na aquisição de equipamentos modernos, sistemas de gestão e monitoria de carga, formação do capital humano, expansão das áreas de manuseamento e acondicionamento de carga.
Porém, os 19 anos da concessão não foram isentos de períodos de instabilidade a nível nacional e regional. Jan Laurens de Vries, administrador delegado da Cornelder, conta que o primeiro revés foi registado nos primeiros anos da concessão, entre 1999 e 2000, como resultado do agravamento da crise económica no Zimbabwe.
Em 2016, a CdM ressentiu-se dos efeitos de fenómenos como a descida do preço das commodities, a nível mundial, e da desaceleração da economia regional. Paradoxalmente, a seca severa que assolou a região da SADC constituiu uma oportunidade para a CdM de incrementar os volumes de manuseamento de ajuda alimentar (constituída por cereais) destinada aos países do Interland com vista a fazer face ao défice alimentar.
Para compreender os contornos da crise que fez com que o Porto da Beira registasse a primeira queda do volume de carga manuseada em 15 anos, a Revista Capital visitou a infraestrutura e conversou com alguns intervenientes do sector logístico.

Resiliência e diversificação
Quando em 1998 a Cornelder decidiu apostar no Porto da Beira, o segundo maior do país, Moçambique acabava de sair de uma guerra civil que durou 16 anos. Porém, o potencial da infraestrutura, como a sua localização estratégica e as oportunidades que o Zimbabwe oferecia ditaram a aposta.
Na altura, os volumes manuseados pela infraestrutura eram modestos. Em 2002, por exemplo, o Porto manuseou 30 mil contentores, um volume que em 2015 cresceu para 211 mil contentores, ou seja, sete vezes mais. Outro dado a ter em conta é que em 1998 o terminal de contentores tinha capacidade para receber 100 mil contentores. Hoje, o Terminal foi ampliado para receber 450 mil contentores de 20 pés.
O grande impulso veio, principalmente, da dragagem realizada em 2010 que aumentou a profundidade do canal de navegação para 14 metros, permitindo a entrada de navios de grande calado.
Mas em 2016 o volume de contentores reduziu 7%, mais concretamente de 211 mil para 198 mil. A quantidade do carvão mineral movimentado no Porto caiu de 4.5 milhões de toneladas, em 2015, para 2.5 milhões de toneladas no ano passado, uma redução de aproximadamente 50%.

Este cenário deveu-se, em primeiro lugar, à queda do preço do carvão no mercado internacional e, em segundo lugar, ao encerramento da linha de Sena durante um determinado período do ano passado por causa das hostilidades militares.
A Revista Capital não teve acesso aos dados concretos, mas Jan Laurens de Vries assegura que o desempenho aquém das expectativas se estendeu para a carga geral, onde a importação dos adubos – um dos principais produtos de importação – reduziu significativamente por causa da seca que assolou a região.
Apesar deste cenário pouco animador, o administrador delegado da CdM diz que o Porto da Beira conseguiu minimizar as perdas visto que não depende de um único produto ou país para equilibrar as contas.

Primeiro trimestre de 2016
O Porto da Beira recebeu, de Janeiro a Junho deste ano, 246 navios, movimentando cerca de quatro milhões de toneladas de mercadoria diversa.
No mesmo período do ano passado, a infraestrutura recebeu 278 navios que movimentaram cerca de 4.3 milhões de toneladas, incluindo o carvão mineral.
Os dados do desempenho do Porto da Beira, na carga geral, no primeiro semestre de 2017 indicam que de Janeiro a Junho, foram manuseadas pouco mais de 2.3 milhões de toneladas, contra as 2.8 milhões de toneladas movimentados no mesmo período de 2016. Ou seja, uma redução na ordem de aproximadamente 500 mil toneladas.
Entretanto, há que ter em conta que o volume da carga geral movimentada pelo Interland aumentou de forma significativa. De Janeiro a Junho de 2016, o total da mercadoria em trânsito foi de 459 mil toneladas, contra as 640 mil toneladas do mesmo período de 2017.
No mesmo intervalo, o Zimbabwe aumentou o volume de carga de cerca de 252 mil toneladas para pouco mais 286 mil toneladas. Já o Malawi viu a sua carga subir de 157 mil toneladas para 195 mil toneladas.Em contrapartida, a quantidade de carvão manuseada no primeiro semestre de 2017, cerca de um milhão de toneladas, esteve muito longe dos pouco mais de dois milhões de toneladas que foram movimentadas no mesmo período de 2016. Ou seja, a redução foi de 50%.

Interland movimenta mais de 50% da carga
Mais de 50% da carga manuseada no Porto da Beira vai para o Interland (Zâmbia, Zimbabwe, RDC e Malawi). Em 2016, por exemplo, dos quase dois milhões de toneladas de carga diversa movimentados (entre importações e exportações), pouco mais de 1.1 milhões tinham como destino ou proveniência o Interland. Só o Zimbabwe movimentou mais de 40% deste volume, seguido pelo Malawi e pela Zâmbia.
Porém, em 2016 alguns utilizadores do Porto, vindos do Interland, decidiram abandonar a infraestrutura (passando o usar os portos de Durban e Dar-es-Salam) por questões de segurança, de acordo com Jan Laurens.
Entretanto, Laurens não sabe dizer o número desses utilizadores, muito menos o impacto deste êxodo nas contas do Porto da Beira.
O facto é que, depois da trégua no conflito militar, a Cornelder foi obrigada a fazer uma cruzada pelos países vizinhos para convencer as empresas que as condições de segurança foram reestabelecidas.
Posto isto, vale dizer que os números do desempenho da CdM no primeiro semestre deste ano apontam para uma retoma do crescimento médio dos últimos 15 anos. Porém, e para o efeito, precisa de uma economia regional enérgica e de uma paz efectiva em Moçambique.

DESTAQUE

Produtos mais movimentados no Porto
Entre os produtos mais movimentados no Porto da Beira há que destacar, nas importações, os adubos, o trigo, viaturas, electrodomésticos e material de construção. Já nas exportações, os principais são o algodão, chá, gergelim, feijão, crómio, manganês e a madeira.

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This entry was posted on 9 de Setembro de 2017 by in Moçambique.

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